Perante a minha forma de ser, qualquer pessoa que passe na minha vida, acaba eventualmente, por me marcar e deixar memórias.
Isto acontece-me inevitavelmente, mesmo que seja por uma ou outra situação singela, dificilmente me esqueço de quem partilha este ou aquele momento comigo.
Contudo, há as pessoas que passam na nossa vida e há as pessoas que entram na nossa vida. E estas últimas, não só nos marcam como passam a ser um pedaço de nós, de tudo o que fazemos, de tudo o que pensamos, de tudo o que vivemos. São estas pessoas que entram cá dentro e que mesmo com as intempéries do tempo, nunca mais saem. São as pessoas que cremos que nunca vão morrer, que vão sempre fazer parte no nosso dia-a-dia, das nossas vivências, dos nossos planos.
Lamento ter de postar isto no blog, mas para grande desgosto, infelizmente o nosso querido e muito amado bivô Arúbio - avô do papá Peixe e tantas vezes parte das histórias descritas neste blog - faleceu este fim de semana.
Um paragem cardio-respiratória traçou o destino ao seu pobre coração de 79 anos, que para espanto de todos, levou o nosso patriarca mais cedo do que qualquer um de nós jamais havia calculado.
Da partida do bivô Arúbio guardo a infelicidade de ter estado presente no momento em que Deus o levou. Mas disso não quero falar. As coisas acontecem porque têm de acontecer, e antes ser eu a esforçar-me por apagar essa imagem e aqueles momentos da minha cabeça do que ser um filho a ter de viver com ela....
Não a quero partilhar com a Laura, nem convosco. Quero esquecer e relembrar o que foi de bom e foi tanta, mas tanta coisa!
Portanto, por mais ridículo que pareça, quero deixar aqui descritos todos os pormenores sobre ele que acho que a Laura um dia irá gostar de ler, até os mais absurdos, mas enquanto me lembro de cada um, quero pô-los aqui, para que fiquem, para sempre.
Creio que falo por todos quando afirmo que fizemos dele uma pessoa feliz. Sempre lhe demos imensos mimos e acho que ele partiu sem a menor dúvida de que todos o admiravam e amavam.
Ao contrário da maior parte dos homens da geração dele, era uma pessoa muito dada a afectos. Como sabem, há 79 anos, a expressão emotiva não era usual entre pais e filhos.
Mas para nossa alegria, esse exemplo passou-lhe sempre ao lado, e lá beijos e mimos era coisa de que ele não nos privava!
Foi um tradicional homem do campo. Dos rijos, dos puros, dos bons.
Vindo de famílias de posses, decidiu sair de casa aos 16 anos e vingar na vida por meios próprios. E conseguiu-o.
Cresceu entre cavalos e toiros, nos treinos do local toureiro Vitorino Fróis, que se tornou no seu amigo e companheiro de tanta história que nos relatava constantemente.
Da sua paixão pela tourada, ensinou à Laura como se pega um toiro com afinco, pega essa que ela executa com o entusiasmo típico dos seus tenros 2 anos de idade.
Herdou por influência dele o mesmo gosto. De facto, há coisas que não se explicam, e não sendo eu nem o papá adeptos da prática a nossa pikena tem nos genes a paixão do avô.
O meu avô partiu sem que eu pudesse desfrutar dele como pretendia. Em consequência, vivi os momentos com o bivô Arúbio de uma forma intensa e maravilhosa.
Em sua homenagem o nosso barco tem o seu nome, e quando casei adoptei o nome dele, o que lhe conferiu grande felicidade.
Nunca, em 12 anos, se referiu a mim como a "mulher do meu neto", mas sempre como a "minha neta".
Era para o papá Peixe uma referência de vida, um companheiro, aquele mentor da existência dele e o avô de quem falava a todos com grande orgulho.
Para mim, foi alguém a quem me liguei de uma forma inexplicável.
Da minha casa há uma porta para a dele, e todas as manhãs o ouvia. A brincar com o cão, a tratar das galinhas, a passear pelo quintal.
A Laura à medida que ia crescendo, pedia cada vez mais para fugir para lá.
Mal o ouvia, ia buscar os sapatos e dizia: "mãe, calça, vou ter com o vô aúbio". Ele, na maior das suas paciências, passeava-a por todo o lado, mostrava-lhe os animais, falava-lhe das flores, dava-lhe ovos quentinhos acabadinhos de gerar.
De vez em quando dava-lhe um raminho de flores e dizia "vai dar à mãe, vai lá".
Inúmeras vezes eu chegava a casa e me deparava com um ovo na cozinha que ele carinhosamente lá deixava. Dizia-lhe "Avô, a Laura não come ovos todos os dias..." e ele respondia-me meloso: "Deixa estar, estes são fresquinhos são melhores para a menina".
Com a única bisneta tinha uma cumplicidade que dava gosto ver, ou não fosse ele, como com todos os netos, de uma extremosidade inigualável.
"Ela no meu colo até trepa por mim acima" dizia, todo vaidoso :)
A única vez que o vi chorar foi quando a Lau teve o incidente do pé no lavatório.
Distribuiu os bens pelos filhos em vida. Frisava que não queria guerras por heranças quando morresse, e mesmo quando todos lhe diziam para não o fazer, ele manteve a sua dignidade.
Construiu uma família linda, unida, sólida e que tem o apreço e admiração de todos que a conhecem.
Quando foi diagnosticado Alzheimer à sua mais-que-tudo, ele dedicou-se a ela como se de um bebé se tratasse.
Pintava-lhe o cabelo, cortava-lhe as unhas, limpava a casa, levava-a a passear de mão dada...
Como casal eram únicos. "Nino" para aqui, "Nina" para ali...sempre.
Brincavam como adolescentes e trocavam afectos constantes.
Para ela os dias são penosos e a doença dela dificulta o dia a dia de cada um de nós.
Num momento está consciente, no outro pergunta por ele.
Estavam sempre juntos, portanto para ela estar em qualquer lugar sem ele, é demasiado estranho para ser compreendido.
Mas todos juntos somos um pedaço dele e creio que é a isso que nos tentamos agarrar e é isso que lhe devemos transmitir.
Eu adorava tê-lo lá em casa. Conversava e conversava e conversava...
Adormecia no meu sofá e nem se incomodava com as horas. Adorava café e uns bolinhos :)
Guloso até mais não!
Ele e a bivó foram os meus grandes companheiros de baixa de parto.
Grandes tardes, grandes lanches...
Deus levou o corpo, mas ficou a alma, o espírito, as frases, as histórias, o exemplo.
De um grande homem, de uma grande pessoa, de um grande amor...
Até sempre querido "vô Aiúio"...
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